sábado

Furando o Sertão


É muito conhecida a história do caboclo indolente, contada não me recorda-se por Monteiro Lobato ou Cornélio Pires.

Um viajante encontrou um caboclo maltrapilho e faminto à porta do mocambo, a maldizer-se da sorte. Em frente, quadras e quadros de terras incultas.

- Será possível que esteja você em tanta miséria com tanta terra em frente á sua casa?

Essa terra não produz feijão?

- Inhôr não.

- Não dá milho?

- Inhôr não.

- Não dá mandioca?

- Inhôr não.

- Já plantou?

- Ah! Plantando, dá...

Esta passagem pode ter grande aplicação na zona sertaneja. O Viajante atravessa dezenas de léguas incultas. Por toda a parte a miséria e a mesma queixa.

- A terra não presta, não produz nada.

Tem-se a impressão de que isto por aqui é um pedaço de mundo amaldiçoado por Deus.

Na vila de Carnaíba de Flores, em pleno sertão, estive hospedado na residência do Sr. José Martins de Oliveira.

Qual não foi meu espanto, depois de percorridas centenas de léguas, ao ver magnífico pomar em torno da casa desse cidadão.

Tudo verde, laranjeiras carregadas. Muitas romãs pendentes dos galhos. Saborosas limas de umbigo. Goiabas em quantidade nas árvores. Mamoeiros em plena frutificação. Coqueiros com cachos pendentes. Verdejante parreiral.

Toda a área do quintal da casa ocupada por árvores frutíferas. Frutas diversas á sobremesa.

Isto em pleno sertão, quando todos caluniam a terra, quando todos se queixam da natureza do terreno. E vendo tudo isto, lembrei-me da história do caboclo indolente: - Ah! Plantando dá...

Mário Melo

 

Afogados da Ingazeira 07/07/1931
Publicado em Jornal Pequeno
Recife – sexta-feira, 17 de Julho de 1931

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