Como se pune, em Flores, o “crime” de ter votado com a Coligação
Depois do vigário João Amâncio, o padre Frederico Maciel é expulso a bala – Outras tropelias pessedistas no infeliz município.
FLORES, outubro de 1950 – As cenas de selvajaria de que fora teatro, recentemente, este município, dão a medida do regime de inteira irresponsabilidade e desrespeito á lei, vigente em inúmeras comunas pernambucanas.

Bacamarte - arma de fogo de cano largo e em forma de campânula.
O crime de ter votado “contra o governo” está sendo punido aqui sadicamente, onde não se respeitam sequer a religião ou os sacerdotes de Cristo.
Pernambuco inteiro teve conhecimento do que ocorreu, já pouco mais de um ano com o então vigário da freguesia de Flores, padre João Amâncio, que, depois de sofrer os piores vexames e as mais afrontosas humilhações, foi obrigado por falta de garantias para a própria vida, abandonar a paróquia. Ficou assim sem vigário a mais antiga freguesia do sertão de Pernambuco.
O PADRE MACIEL
Acontece, todavia que há no município outra paróquia, a de Carnaíba, servindo á população dos distritos de Quixaba, Fátima e Boa Vista. Era vigário de Carnaíba, até a semana passada, o padre Frederico Maciel, pertencente á tradicional família pernambucana Rego Maciel, de que, por sinal, também é membro o deputado federal José Maciel. Pois bem, o padre Maciel, que em Carnaíba vinha realizando uma obra social digna de especial destaque, através notadamente do Instituto Pio XI, educandário que ali fundou – acaba de ser tangido a bala, de sua paróquia!
FESTEJANDO A VITÓRIA
É o segundo padre a ser expulso de Flores pela intolerância pessedista e pela violência policialesca ao serviço da política local. Os jornais da capital divulgaram o telegrama daquele virtuoso sacerdote nesse sentindo. A pretexto de festejarem a vitória do Sr. Agamenon Magalhães invadiram-lhe a casa, desrespeitaram-no pessoalmente, empurraram violentamente a progenitora e as irmãs do padre Maciel e desfecharam inúmeros tiros de revolver, dentro da casa do sacerdote, em um pobre rapaz que teve a coragem de protestar contra tão vergonhosa cena de selvajaria. E desta, foi o agente principal um soldado de polícia de nome Jorge, mancomunado com civis embriagados.
A VEZ DE FREI BERTINO
Mas, ocorre que os vexames a que submetem o vigário de Carnaíba prendem-se a vexames outros por que passou, ás vésperas do pleito, também aqui em Flores, o religioso franciscano, do convento de Triunfo, frei Bertino, pelo fato de ter lido, do púlpito, as instruções da Liga Eleitoral Católica sobre as eleições. É que o juiz da comarca, Dr. Rollemberg Leite, cedendo a influencias político-partidárias e com ajuda do delegado de polícia, um sargento e várias praças, intimou frei Bertino, por escrito, a comparecer, sob as penas de lei, ao Cartório Eleitoral, a fim de prestar declarações. A intimação foi executada pela polícia, em plena igreja, e o sacerdote, de sentinela á vista – um tenente, um sargento e quatro soldados – teve de permanecer, em jejum, no Cartório, submetido a um interrogatório que durou seis horas.
VARRIDO A BALA
O fato foi levado ao conhecimento do Tribunal Eleitoral e o juiz Rollemberg necessitava explicar-se, isto é, necessitava provar que o frade não fôra preso. Não sofrera nenhum constrangimento, ás vésperas das eleições pois tudo ocorreu no dia 1º de outubro. E aqui é que os fatos de Carnaíba se relacionam com o caso de frei Bertino.
É que, para defender-se, o juiz transportou-se, á noite, ao distrito de Carnaíba,com fito de obter do padre Frederico Maciel a assinatura para um documento no qual o mesmo atestasse que o religioso franciscano nada sofrera, não fôra intimado, nem preso tão pouco. O vigário não poderia atestar semelhante coisa, como de fato, não atestou. Arriscou-se, entretanto, a entrar na lista negra do pessedismo. E tanto entrou que, poucos dias depois, era obrigado, como acima descrevemos a abandonar a sua paróquia, debaixo de bala, aliás.
OUTRAS FAÇANHAS
Mas, para que não se diga que são apenas os padres as vítimas do vandalismo pessedista, em Flores, é oportuno salientar, que, três dias antes da agressão ao padre Macial, o cidadão Manuel Lucio, na sede do município teve a residência invadida, ás 3 horas da madrugada, depois de arrombar a porta da casa a coice de bacamarte. O Sr. Manuel Lucio foi ferido, também tendo recebido um ferimento extenso na cabeça uma sua filha de nome Sonia.
A tudo isso serviu de pretexto a vitoria do Sr. Agamenon Magalhães. O ambiente, em Flores, é de absoluta intranqüilidade e de insegurança. Algumas famílias já se retiraram do município, e muitas outras não têm outro caminho a seguir. Novas violências se anunciam por ocasião da posse do novo governador. Não há mais padres nem frades, em Flores. Mas há os mil e novecentos e tantos eleitores independentes que tiveram a suprema coragem de votar “contra o governo”, nesta terra infeliz.